Poesia novíssima #0004
a reedição colossal de Edimilson de Almeida Pereira
Hoje vou falar de apenas um livro. Na verdade, de dois, mas numa caixa só. Ou melhor, são vinte e oito, reunidos agora em dois volumes apenas. E numa caixa só. No total, são 1750 páginas de poesia. Mas saibam os que aqui me leem: se você alguma vez já se assustou, ou vier a se assustar, com a quantidade de livros publicados por Edimilson de Almeida Pereira, posso garantir que nenhum desses números é tão espantosamente admirável quanto o que você encontrará dentro dos livros. Estamos falando de uma GRANDE OBRA: Poesia & agora, que a Mazza acaba de lançar.
O box Poesia & agora reúne, em dois volumes, os livros de poemas publicados por Edimilson desde sua estreia, Dormundo (1985), até Quasi (2017). São vinte e oito livros escritos e publicados em pouco mais de três décadas, durante as quais, além da atuação como professor e pesquisador na Universidade Federal de Juiz de Fora, ele também lançou diversas obras infantis, infantojuvenis e ensaísticas (individuais e coletivas). Em todos esses campos, Edimilson está sempre abrindo caminhos.
De 2017 para cá — para alegria de quem sabia há bastante tempo (hoje me dei conta de que acompanho Edimilson de perto desde meados dos anos 1900: ô sorte!) que estava saindo daquela caneta algo único, capaz de mudar o tão viciado eixo da nossa atenção —, a obra de Edimilson tem circulado mais largamente, em edições nacionais. Nessa safra da última década, destacam-se os três romances que ele lançou em 2021 (O ausente [Relicário], Um corpo à deriva [Macondo] e Front [Nós], sendo que, pelo primeiro, ficou em segundo lugar no Prêmio Oceanos e, pelo terceiro livro, recebeu o Prêmio São Paulo) e a reedição dos ensaios Entre Orfe(x)u e Exunoveau (2022) e A saliva da fala (2023), ambos pela Fósforo. Contam-se aí também quatro novos livros de poemas: Melro (Editora 34, 2022), O som vertebrado (José Olympio, 2022), A morte também aprecia o jazz (Círculo de Poemas, 2023) e o recente Porte Étoile (Cobalto, 2025). E uma joia inclassificável: A vida não funciona como um relógio (Quelônio, 2022).
Justamente por força desse movimento que ele tem feito nos últimos anos, expandindo o arco de sua ação, criação e reflexão, é muito importante ver novamente nas livrarias tudo o que ele vinha fazendo desde os anos 1980, porque muitas daquelas edições se tornaram raríssimas (ainda que, em outras oportunidades, ele tenha feito reedições de alguns livros e lançado uma antologia ampla como Poesia+, que a Editora 34 lançou em 2019). Para os leitores que estão tomando contato com a poesia e o pensamento de Edimilson nessas obras mais recentes, a visão de conjunto que Poesia & agora oferece é não apenas monumental, mas fundamental.
No excelente ensaio “Fazer, agora”, que serve de posfácio aos livros, Carolina Anglada de Rezende anota: “A reunião de 28 livros de poesia pressupõe muitos agoras”. De fato, cada um dos livros de Edimilson está profundamente vinculado ao “agora” em que foi escrito, como se tivesse uma função muito específica (degrau a degrau, passo a passo, uma batida de asa após a outra para compor o voo) no desenvolvimento de um percurso, de uma investigação, em sentido forte, porque, sendo radicalmente pessoal, é também, como fratura, o questionamento, o desvendamento do todo (Minas, o Brasil, esta etapa da vida na humanidade) em que fatalmente se insere. Essa é uma visão que se intensifica diante dos livros todos colocados em ordem, com a mesma caprichosa imagem gráfica: eles passam a compor uma coisa só, uma voz só, espantosamente coesa, em que cada parte (cada agora) tem seu lugar preciso.
Deve-se dizer, ainda, diante do conjunto da obra de Edimilson, que, por mais que sua escrita tenha assumido as mais diferentes formas nessa trajetória, é essencialmente de uma obra poética que estamos falando. São evidentes as relações profundas entre seus ensaios (baseados em pesquisas acadêmicas de uma vida toda) e o que se elaborava entre seus livros de poemas. Por isso, Poesia & agora é também um ensaio, ou o ensaio dos ensaios, a partir do qual Edimilson se lança para tantas direções, sempre com a mesma operosidade, seriedade e, sobretudo, inventividade típica de poeta maior.
Aliás, é preciso ressaltar: parece muito, mas é só o começo. E Edimilson sabe disso: não é por acaso que ele estampou a palavra “agora” na capa. Esses livros não voltam para apontar para o passado; chegam para preparar novos saltos. É a reorganização da obra, sim, mas para recolocá-la como coisa viva que é, entre outras coisas vivas, dando suporte ao que ainda há de surgir, lá no escritório dele em Juiz de Fora (Edimilson ainda é um jovem de 62 anos e vai dar muitas voltas no parafuso: tenho certeza que, neste momento, ele está com os olhos atentos aos livros, ao mundo, com a caneta na mão) e também nos lugares pelos quais sua voz — nada mansa — há de passar.
RECADOS IMPORTANTES
CLUBE DE LEITURA DO CÍRCULO DE POEMAS | SP
Logo depois do Carnaval, a festa continua na Casinha (rua Tinhorão, 60): na quinta 19/2, às 19h, estaremos reunidos para ler a Poesia completa da Gilka Machado, lançada em dezembro pelo Círculo de Poemas, e as Poesias do Mário Andrade.
NOVOS CLUBES DO CÍRCULO DE POEMAS PELO BRASIL
Em fevereiro, tem novidade nos nossos clubes: Belém, Florianópolis, Juiz de Fora, Recife e Salvador entram na roda, com uma nova turma de mediadores e livrarias parceiras, que chegam animadíssimos para ler poesia. Confira no nosso Instagram.
CÍRCULO DE POEMAS NA GAMA
Neste mês, na coluna do Círculo de Poemas na revista Gama, escrevi sobre um poema da Laura Wittner, do maravilhoso livro Tradução da estrada. Leia aqui.
SÁBADOS PARA LER DRUMMOND
Está confirmada a realização do nosso clube de leitura de Drummond no Para Escrever! Serão seis sábados, a partir de 21/2, conversando sobre os livros do box Drummond Essencial lançado pela Record. Ainda dá para embarcar: aqui.
SARAU DO MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA
No dia 28/2, sábado, às 17h, vai rolar um sarau incrível no Museu da Língua Portuguesa, em parceria com o Círculo de Poemas: Diogo Cardoso, Marcelo Ariel, Veronica Stigger, Zilmara Pimentel e este que vos tecla estarão reunidos para ler poemas de Adão Ventura, Donizete Galvão, Gilka Machado e Julieta Bárbara.
ESCREVERES NO SESC CAMPINAS
Lembram do Escreveres? Aquela oficina de quatro meses, com 20 encontros, de prosa (com a Lilian Sais) e poesia (comigo) que rolou no SESC no semestre passado? Pois bem, nos próximos dias vamos divulgar as novas turmas em outras cidades: prosa em Santo André e poesia em Campinas. Vai ser bom demais. Acompanhem nos nossos perfis do Instagram, que avisaremos assim que as inscrições estiverem abertas.
BOM CARNAVAL, do jeito que você preferir se divertir!





Realmente parece ser uma obra incrível, até agora o único dele que li foi “A morte também aprecia o Jazz“.